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Márcia Villas-Bôas nasceu no Rio de Janeiro em 1942 e aos 17 anos formou-se em música pelo Conservatório Brasileiro de Música.

Seus interesses, no entanto, logo se fixaram no ocultismo e ingressou em várias ordens iniciáticas.

Aprofundou seus estudos em parapsicologia e apresentou trabalhos em diversos simpósios em todo o Brasil sobre esoterismo, ufologia e misticismo.

Segue abaixo alguns textos de Márcia Villas-Bôas:


ALMAS GÊMEAS

No nosso universo físico, tudo precisa de um complemento para poder manifestar algum tipo de ação, ou de criação, como os dois pólos de uma tomada para manifestar a luz, a semente e a terra para haver a germinação e assim por diante. O ser humano é um ser dividido, procurando seu complemento, embora possua em si mesmo sua outra parte, seu oposto complementar, pois o ser interior, aquele ser imortal e divino, é polarizado. Este não precisa de alma gêmea.

O que leva o ser humano à necessidade da busca da alma gêmea é a própria elevação espiritual. Porque, na verdade, o que é crescimento interior? Crescer interiormente significa levar o foco da consciência cada vez mais para dentro de si mesmo. A medida que isto acontece, a consciência vai se expandindo, porque vai se harmonizando com novas gamas de freqüências vibratórias enquanto vai chegando mais perto de seu próprio conteúdo divino. E vem então a ânsia da busca da alma gêmea, isto é, do equilíbrio vibratório que fará com que possa se harmonizar com as gamas de freqüência mais sutis do cosmos, nas quais não existe mais a dualidade na manifestação. As freqüências cósmicas são polarizadas e, para interagir com elas, a consciência humana precisa também estar polarizada e é essa necessidade que faz com que busque sem cessar o seu oposto complementar, sua alma gêmea.

Quando o foco da consciência atinge, por fim, seu real núcleo interior e divino, cessa a busca da alma gêmea. Ela foi encontrada, enfim, em si mesmo e a pessoa pode se harmonizar com as vibrações mais sutis do cosmo, sem precisar para isto de um equilíbrio através de um complemento fora de si. Ela encontrou o ser total que habita nas profundezas de seu próprio interior e que, como ser polarizado que é, pode finalmente realizar a meta final da Criação: o encontro consciente do Homem com o Todo.


A VOLTA AO PAI

Viajante da estrada longa, já cansado, sem ânimo para prosseguir,
Repara que não é a aspereza da trilha que dificulta a tua caminhada...

Porém se despisses o rico e pesado manto que te cobre,
teu corpo ficaria mais leve e tua viagem seria mais rápida e mais fácil.

Acaso já viste que, logo adiante, tens um monte para escalar?

Como pretendes faze-lo com teu lindo manto a puxar-te para trás?

Sei que teu manto é rico, sei que com as pedras que o adornam poderias comprar o mundo;

mas de que adianta tua fortuna nesta estrada que tu tens que trilhar sozinho?

A estrada não tem retorno, o caminho é difícil e teu manto é tão pesado.

Vamos, caminha mais uns passos, pode ser que ainda resistas um pouco.

Antes, porém, escuta o que ainda tenho a te dizer:
Despe o manto e sobe o monte que te espera;

Mas não olhes para trás, pois o fulgor das jóias abandonadas na estrada poderia cegar-te.
E tu voltarias a elas.

Segue em frente, que no final da escalada verás sair por trás do monte
um brilho maior do que o do teu manto, e ouvirás mil vozes cantando
em louvor ao viajante que chegou ao final do caminho.

Lá, na tua nova morada, não terás somente um novo manto,
mas também um cetro e uma coroa, porque lá serás rei.

Reinarás sobre teus súditos mais fiéis que, contudo,
outrora governaram sobre a tua fraqueza.

E eles te darão um tesouro mais rico do que aquele que
abandonaste na estrada.

Eles te darão a chave da Vida Eterna.

Do livro: À sua Imagem e Semelhança, de Márcia Villas-Bôas


VOCÊ QUE VEIO DAS ESTRELAS

Você, que veio das estrelas e deu o grande mergulho no mundo de matéria,
você, que veio das estrelas e, com o sacrifício de sua própria origem cósmica,
se abrigou num invólucro de carne.

Você, que veio das estrelas, e abandonou a realidade universal para habitar o mundo de ilusões,

Você, que veio das estrelas, e que agora se sente estranhamente só,
esqueça-se de tudo e entregue-se aos apelos de sua voz interna.

Ouça o que ela tem para lhe dizer, que nada mais é tão importante,
nem mesmo os compromissos com que o mundo tenta distrair sua visão cósmica.

Descobrirá que, na verdade, não está só,
que são muitos os seus irmãos das estrelas que para cá também vieram
para estender a mão e amparar com ombros fortes os passos da humanidade
nesta difícil época de transição.

Será fácil reconhecê-los, palavras não serão necessárias,
e nem mesmo será preciso saber seus verdadeiros nomes.

Saberá encontrá-los pela afinidade de suas energias,
pelo chamado de seus corações
e pela profunda identificação com seus sentimentos.

Você, que veio das estrelas, sente agora no canto mais íntimo de sua alma,
que chegou o momento de encontrar, na Terra, a sua família universal,
que chegou o momento do reconhecimento,
que chegou o momento da reunião de todas as forças para a realização
da missão única de que todos se incumbiram, antes de aqui chegarem.

Abra seu coração, acorde sua consciência adormecida,
apalpe seu ser interior, deixe que ele fale,
acima de tudo, acima do mundo, acima de todos os conceitos que não lhe permitem existir
em toda a sua potencialidade cósmica...

Você, que veio das estrelas, que é todo luz e é todo força,
libere-se, que chegou o tempo de abrir as portas para uma nova era.

Você, que veio das estrelas, eterno viajante do espaço,
compartilhando agora com tantos outros irmãos
uma experiência tridimensional e difícil,
não se deixe mais perder em momentos inúteis que lhe trazem apenas solidão,
não se deixe mais seduzir pelas falsas luzes do asfalto,
assuma sua personalidade cósmica
estenda seus braços e, num único abraço,
envolva sua grande família, sua imensa família universal
e todos juntos, com plena consciência da unidade de sua origem,
cada qual com a sua parcela de colaboração,
cumprirão com alegria e coragem
o maravilhoso trabalho de conscientização da humanidade
para a chegada de um novo milênio!

Texto de: Márcia Villas-Bôas. Este texto tem relação com o livro: A Volta


- Quíron, como são os deuses?(...)

- Os deuses são como os humanos, Jasão, apenas irradiam muita luz, quando querem.

- Mas eles são bons, são meigos ou são amedrontadores?

- São bons e são maus, são meigos e amedrontadores, são justos e injustos, são bonitos e feios, são tolerantes e vingativos. São deuses, Jasão.

- Eles moram no Olimpo? (...)

- Ali, naquele monte que desaparece em meio às brumas do amanhecer e também no coração de cada homem e de cada ser da natureza. (...)

- Não entendi, Quíron. Como podem os deuses habitar no Olimpo e, ao mesmo tempo, morar em meu coração, ou no seu, ou no coração de tudo o que existe?

- Acho que você já se esqueceu do que lhe ensinei. A existência é a mente, Jasão. Você existe onde está em sua mente, sua consciência. E a mente dos deuses é poderosa, pode estar em qualquer lugar ou com qualquer pessoa, se assim o desejarem. Quando eles querem, podem interagir com qualquer vivente e saber, e sentir, e perceber aquilo que o ser com o qual estão harmonizados sabe, sente ou percebe. E, nestes momentos, Jasão, aquele que interage com um deus se torna deus também. Porque, da mesma maneira, absorve o conhecimento divino e sente os sentimentos divinos.

Trecho do livro Olimpo, a Saga dos Deuses, de Márcia Villas-Bôas.


QUEM SOU, DE ONDE VIM, PARA ONDE VOU?

Quem sou?

Lembranças de qualquer passado, que possam me mostrar minha origem ou a razão da saudade constante que me devora o peito, não voltam à minha memória, por mais que vasculhe as profundezas misteriosas do meu inconsciente.

Evoco as poucas cenas da infância que ficaram indelevelmente gravadas em minhas lembranças e vejo estranhos, que não são a minha verdadeira família, num lar que não é meu aconchego e lembro de carinhos que não transmitiam o amor e a segurança que sabia existir em algum lugar do tempo ou do universo. E a criança que eu era perdia os olhos no espaço, vagando o pensamento entre as estrelas, à procura de seu lar, escondido na escuridão de um céu cheio de estrelas.

De onde vim?

Novamente deixo o olhar se perder no nada, como se o curto alcance da minha visão pudesse me fazer ver em qual daqueles minúsculos pontos de luz está a minha origem. Nada vejo, de nada me lembro além de enormes olhos negros que me fitavam com carinho, despertando em meu coração a energia ígnea do Amor, que ativado por tais lembranças, flui mais intensamente por todos os caminhos do meu corpo.

Amor... como é profundo o Amor que brota em meu peito, quando minha mente toca as estrelas! A saudade que então chega é insuportável, mas ativa algum programa misteriosamente inserido em seu ser, que me fala da necessidade de espalhar essa freqüência de Amor por todo este planeta tão sofrido.

Para onde vou?

Entrego à minha saudade a tarefa de me levar de volta à origem, esteja ela no céu, nas estrelas ou em algum mundo oculto nas dobras de outra dimensão. Lá, onde passado e futuro não existem e o presente é a eternidade de um momento mergulhado num fluido perene, atemporal, onde a vida é recriada a cada instante cósmico e onde o Amor é a força que conecta os seres viventes à alma do Universo.

Márcia Villas-Bôas


AMOR

"O Amor é fogo que nasce no coração como uma chama sagrada e consome os elementos mortais do ser humano, concedendo-lhe a divindade.

A dor que traz é a do fogo a queimar os liames que separam a alma do corpo.

O Amor não é um sentimento despertado por outra pessoa; o Amor é a fogueira que se acende no momento certo em que a alma está pronta
para crescer e o corpo para suportar o sacrifício da destruição de sua mortalidade."

Do livro: O Memorial de Jeshuah, de Márcia Villas-Bôas.


SER GENTE...

Ser gente é amar com uma intensidade tão grande que se chegue a sentir que se é o próprio Amor.

Ser gente é olhar o nascer do sol no horizonte e sentir que ele é o reflexo do Sol que nasce no coração.

Ser gente é não se sentir escravizado aos limites da matéria.

Ser gente é olhar para o espaço infinito e sentir que seu lugar é ali, e é fechar os olhos e sentir sua consciência vagando pelo espaço, presente em cada estrela do Universo, em cada lugar de todos os mundos.

Ser gente é ter vontade de que todos sejam gente também, e ao mesmo tempo, ser gente é não ter mais vontade, e ser gente é ser a própria Vontade Universal.

Ser gente é se esquecer de tudo o que já se sabe, é não saber mais nada e tornar-se apenas um veículo para o Conhecimento Universal.

Ser gente é não precisar mais julgar.

Ser gente é não precisar mais agradecer.

Ser gente é não precisar mais procurar.

Ser gente é apenas existir no coração de todo o Universo!

Extraído de "Um Sonho na Imensidão", de Márcia Villas-Bôas.


TU e eu

Viajei pelo mundo
À procura de alguma coisa.

O que? Eu não sabia.

Procurava algo
E não conseguia encontrar.

Cansei.

Olhei então para o céu
E comecei a busca nas estrelas.

Lá em cima,
no espaço,
senti uma doce sensação de liberdade,
a vida parecia mais leve.

Mas ainda não era aquilo que eu buscava.

Aproximei-me do Sol
e fui atraída a seu cálido seio.

Seus raios confundiram-se com os raios do meu coração
e uma Paz profunda invadiu-me a alma.

Foi então que te vi.

Dentro do Sol,
dentro da luz do meu coração,
tua imagem sorriu-me.

Não te reconheci à princípio,
mas sabia já ter visto em algum lugar
o brilho de teus olhos.

Tua voz soou-me familiar
e falou-me de Amor,
falou-me de um Amor Universal,
E falou-me daqueles pobres seres humanos
perdidos na ignorância.

Afligi-me por eles
e compreendi que encontrava
aquilo que buscava.

Eu buscava a Luz.(...)

Do livro: O Grande Encontro, de Márcia Villas-Bôas


PROCURA A INTROSPECÇÃO

Conduz o foco da consciência para o teu interior.

Fora de ti, ela esvoaça como uma borboleta tocando um a um em teus pensamentos
pelas coisas do mundo e te prendendo em cadeias de ilusão.

Em ti, o foco da tua consciência despertará o sol da tua alma
e tua visão interna então mostrará a diferença entre o sonho e a realidade.

Trecho do livro Arquivos da Transcendência, de Márcia Villas-Bôas.


NO COMEÇO, O HOMEM E O PAI

E disse o Pai a seus filhos:

“Se eu vos amo e a vós pertenço,
porque procurais o amor fora de mim?

Se eu respondo às vossas perguntas,
por que ides em busca das respostas longe de casa?

Se eu vos dou conforto,
por que permaneceis tanto tempo fora do lar?

Se eu vos dou segurança,
por que buscais apoio com quem não vos compreende?

Se é vosso o meu reino,
por que quereis reinar sobre o que não vos pertence?

Se em meu coração encontrais abrigo,
por que permaneceis sob as intempéries?

Se eu sou a Luz,
por que viveis nas trevas?

Se eu sou a Vida,
como pretendeis viver longe de mim?

Se eu estou convosco,
por que me procurais sempre em lugares tão distantes?”

Do livro: À sua Imagem e Semelhança, Márcia Villas-Bôas.


A CRIANÇA E O AMOR

Era uma criança muito pequena e muito triste.

Tão pequena, que o mundo inteiro tomava proporções gigantescas ante seus olhos amedrontados.

E as pessoas que a cercavam cresciam como monstros disformes sempre prontos a devorá-la.

Tão triste, que parecia abrigar em seu coração toda a tristeza do mundo, e as lágrimas que lavavam seu rosto não aliviavam a dor que lhe oprimia o peito.

Sofria de saudade...

Saudade daquela estrela bonita que brilhava nas noites limpas, saudade do Sol, saudade do espaço.

E não encontrava na Terra o que preenchesse o vazio que trazia na alma.

Vazio cheio de saudade, vazio cheio de dor, vazio cheio de pranto, vazio cheio de escuridão.

E a criança caminhava pelo mundo, tropeçando nos obstáculos criados pela matéria, sujando os pés na poeira da estrada, sujando o corpo na poeira da vida.

E quando chorava, suas lágrimas banhavam-lhe o pequeno corpo e ele resplandecia.

A criança olhava-se surpresa, sem compreender, porém, o porquê daquela névoa azulada que a envolvia após o pranto.

E continuava a caminhar sozinha pela estrada, com medo de enfrentar o mundo de gigantes que a maltratavam.

Um dia, em sua caminhada, a criança viu uma luz que deslumbrou seus olhos já acostumados às trevas. Dirigiu-se para essa luz e viu-se envolvida por ela.

E dentro dessa luz viu um Ser, lindo como aquela estrela que brilhava nas noites limpas, lindo como o Sol, lindo como o espaço.

Sua roupa de prata brilhava mais que todas as luzes da matéria reunidas e seus olhos, ah, seus olhos!...

A criança perdeu-se dentro daquele olhar tão cheio de ternura, tão cheio de amor.

O estranho Ser sorriu e estendeu-lhe a mão.

Suas mãos se encontraram e a criança sentiu uma torrente de Amor e de Luz invadir o vazio de sua alma, e seu coração, cansado de sofrer, palpitou com aquela torrente de vida que começou a correr-lhe pelas veias.

E a criança, por instantes, perdeu a noção do tempo e do espaço, subiu às estrelas e o mundo onde vivia pareceu-lhe um pequeno ponto colorido em meio a milhões e milhões de outros pontos de luz.

Voltou à Terra trazida pela mão que segurava a sua e quando olhou seu próprio corpo, notou, surpresa, que crescera, crescera tanto que os seres humanos, que antes pareciam-lhe monstros imensos, transformaram-se agora em pequenas e frágeis criaturas, perdidas na escuridão.

Sentiu pena, sentiu Amor.

Estendeu os braços e envolveu-os a todos num único abraço, e deixou verter sobre eles todo o imenso amor que lhe enchia o peito.

Depois, olhou em torno, à procura daquele Ser belo, vestido de prata, de olhar terno, e não o encontrou.

Sentiam, porém, nas mãos o calor de suas mãos, sentia sua doce presença.

Mas onde estaria ele?

Foi então que olhou para dentro de si e o encontrou.

A Sabedoria Universal tornara-os um só, reunira num único Ser, a criança e o Amor.

Extraído de: O Grande Encontro, de Márcia Villas-Bôas


PROMETEU E A CRIAÇÃO DO HOMEM

"... Prometeu aproximou-se do ser inerte que jazia no chão, esperando o sopro que lhe daria a vida. Parou e fechou os olhos.

— Rainha dos bosques sagrados — balbuciou tremulamente — eis-me aqui, novamente suplicando seu auxílio. Ilumine meu coração e minha mente, para que eu seja capaz, neste momento sagrado e único, de dar a vida a esta criatura. Seja ele o senhor de toda a criação física.

Calou-se. Logo em seguida começou a sentir um calor que chegava, que ocupava seu corpo e sua mente, que o incitava a mover-se em direção à pedra côncava que brilhava, cheia do fogo sagrado. Pegou a pedra e e chegou bem perto da criatura.

— Ser que dorme seu sono eterno e incriado, eis-me pronto a dar-lhe o sopro da vida.

Prometeu percebeu vagamente que não era mais ele quem falava. A presença da Alseide em seu interior era tão forte que não deixava nenhuma dúvida possível. Continuou:

— Que o grande Espírito permita que seja ele um depositário do fogo sagrado.

Num movimento suave, deixou verter sobre a criatura o fogo que brilhava na concavidade da pedra. Viu que ele escorreu pelo corpo inerte, percorrendo canais sutis em sua estrutura. Por fim, dividiu-se em duas partes. Uma delas colocou-se na base da coluna e a outra no coração. Uma força impulsiva fez com que Prometeu chegasse seu rosto ao rosto daquele ser que criara. Sua boca parou muito perto daqueles lábios ainda adormecidos e ele falou num sussurrou:

— Eu lhe insuflo o sopro divino.

Colou sua boca à da criatura e soprou com brandura. Imediatamente percebeu um ligeiro suspiro brotar dos lábios sob os seus. Afastou-se e observou.

O ser respirava levemente. Pouco depois a respiração tornou-se mais forte, e ele abriu os olhos.

Prometeu levantou-se, admirado. Olhou sua criatura que despertava do sono eterno para a vida física. E sorriu, gratificado.

Viu que o ser, agora vivo, estendia-lhe uma das mãos, como que pedindo auxílio. Segurou aqueles dedos quente e macios e ajudou-o a erguer-se. E ali estava, à sua frente, sua própria criação!

Com a mão direita, tocou-lhe o centro da fronte.

— Você agora faz parte do mundo criado, você existe e, como ser vivente, será responsável pela manutenção do mundo de Gea. Você é divino e humano. Você é o Homem.

O Homem sorriu e olhou em volta, surpreso com tudo que o rodeava. Depois deu um passo, e mais outro. Lentamente, aproximou-se da entrada da gruta. Parou e olhou o céu estrelado. Deixou que seus olhos se perdessem na imensidão. E, pela primeira vez, o Homem teve saudade. Saudade da origem, saudade de algum lugar que não sabia onde ficava, talvez saudade do calor do fogo, cuja parcela ínfima trazia em seu corpo, ou talvez saudade da inconsciência que deixara e que o aproximava tanto do Todo.

E, pela primeira vez, o Homem chorou."

Trecho do livro Olimpo, a Saga dos Deuses, de Márcia Villas-Bôas.


ILUSÕES

Chegamos a essa vida, sem lembrança de onde viemos e sem saber para onde vamos. Só fica, bem no fundo da alma, uma saudade esquisita...

Na memória limpa são gravadas novas impressões, para podermos sobreviver nesse mundo de matéria. Essas impressões passam a ser a nossa realidade e com elas pretendemos acalmar a dor da saudade que brota nos momentos e silêncio. E nos iludimos, criando situações na vida que acreditamos que irão, enfim, acalmar a ânsia da alma de encontrar novamente suas origens. Depois, nos desiludimos... e partimos para uma nova ilusão.

E assim, de ilusão em ilusão, de dor em dor, de desilusão em desilusão, o nosso arco vai sendo esticado, tensionado ao limite máximo de sua resistência.

E, quando cansados, exaustos, enfim, de procurar no pacote de nossas ilusões a calma para a dorida busca interna, deixamos escapar a flecha de nossos anseios maiores e ela parte, decidida, luminosa e veloz, rumo às estrelas. O arco se relaxa, o arqueiro acompanha com a alma o rastro de luz, seus olhos se perdem no infinito e a compreensão de sua origem milenar começa a clarear sua mente.

Então,do pacote de informações terrenas, passaremos a usar somente aquelas que auxiliarão em nossa caminhada, a dor das desilusões não chegará mais à alma, pois não haverá mais a ilusão de encontrar respostas, paz e felicidade nas situações do mundo físico. Agora, é trabalhar as lembranças da origem, que chegarão de mansinho, mostrando o real motivo de viver.

Há muitos anos coloquei todo este processo num trecho em um dos meus livros e vou transcrever abaixo:

“Serás crucificado nos teus desejos.
Talvez encontres alguém que te ajude
a carregar a tua cruz,
mas na hora da crucificação estarás só.

A sede ressecará a tua boca;
Beberás o fel do teu querer.

E enquanto tiveres desejos permanecerás na cruz.

As fibras do teu ser serão distendidas uma a uma,
até o limite máximo da tua resistência.

E não haverá bálsamo para a tua dor.

E quando tuas forças chegarem ao fim e, exaurido,
deixares tombar tua vontade,

A lança divina penetrará teu coração e tu descansarás.

E ressuscitarás para a vida.”

Do livro: À sua Imagem e Semelhança, Márcia Villas-Bôas.


LIBERTAÇÃO

No império dos sentidos
Eu já fui grande, fui rei,
Mas também já fui vassalo
De desejos reprimidos
Que um dia escaparam,
Se soltaram da prisão
E encarceraram minhalma
Em cadeias de paixão.

Sem notar que a majestade
Jazia no calabouço
Julgava-me dono do mundo,
Amo e senhor da verdade,
Nem via que no castelo
Que outrora fora meu
Reinava agora a fraqueza
E o triste escravo era eu.

E quando, enfim, percebi
As correntes que me atavam,
Quis gritar, correr, fugir,
Tudo em vão, enlouqueci.
Mergulhado num inferno
De anseios e paixões
Desci ao fundo do poço
Arrastando meus grilhões.

No meio da escuridão
Vi o brilho dos seus olhos
Vi a luz do seu sorriso
E segurei sua mão.
Envolto neste calor
Não fui mais rei nem fui gente,
Virei estrela cadente
Num tranqüilo céu de amor.

Márcia Villas-Bôas


A MALDIÇÃO DE CASSANDRA

Cassandra e seu irmão gêmeo Heleno, filhos do rei de Tróia, Príamo, foram agraciados por Apolo, ao nascerem, com o dom da profecia.

Apolo, porém, vendo Cassandra crescer em inteligência e beleza, por ela se apaixonou.

Cassandra, que servia à deusa Atena, recusou seu amor e Apolo, ferido em seu orgulho, retirou da moça o dom da persuasão, isto é, por mais que profetizasse, ninguém acreditaria no que dissesse.

Cassandra, desesperada porque ninguém a escutava, avisava a todos sobre os perigos que Tróia corria, sobre o fogo que a destruiria, sobre a necessidade de que tomassem providências sobre o que ocorria em seu Reino para que a desgraça não caísse sobre ele, mas ninguém acreditava em suas palavras. E não escutavam nada do que dizia, julgando estar a moça completamente enlouquecida.

Na história de nossa humanidade, foram muitos os que carregaram, e que ainda carregam consigo a maldição de Cassandra. Pelo visto, ao amaldiçoar Cassandra, Apolo estendeu seu anátema a todos aqueles que conseguem ver um pouco além mas que, quando expõem sua nova visão do mundo, são crucificados, queimados em fogueiras, ou vistos como loucos, coisa que vem acontecendo ao longo da nossa História.

Será isso apenas mais um capricho dos deuses, ou um castigo para aqueles que ousam pretender mostrar à humanidade o caminho mais rápido e indolor para o resgate de uma cegueira milenar?

Texto de: Márcia Villas-Bôas.


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